DESTAQUE: Viagem insólita, a bordo do CVN-70, USS Carl Vinson



Paulo Marcio Vaz

Não há contagem regressiva, nem mesmo alguém para contar até três e dizer “já”. As únicas instruções são: – Flexione as pernas, encostando a ponta dos pés na base das costas da poltrona à sua frente.

Cruze os braços em forma de “x”, segurando firme nas alças de seu cinto de segurança, e abaixe a cabeça até encostar o queixo em seu peito.

Para quem já viu um daqueles filmes de catástrofe de avião, ou mesmo sobreviveu a um acidente real, é exatamente aquela posição que todos os passageiros adotam antes da queda. Tudo pronto, agora é esperar a hora H. Felizmente, não estávamos prestes a sofrer um acidente, mas a decolar do porta-aviões norte-americano Carl Vinson.

Após 10 eternos minutos naquela posição, de repente, sem aviso prévio, é dada a partida: o avião cargueiro C-2 – praticamente sem janelas e levando cerca de 30 passageiros – é então catapultado. Vamos de zero a 208 km/h em três segundos. A sensação, ao menos para quem nunca havia passado por aquilo, é quase indescritível. O cérebro pareceu parar. A alma precisou ser muito ágil para não se perder do corpo.

A decolagem de qualquer avião – seja um caça ou um mero cargueiro como o C-2 – de um aeroporto flutuante como o Carl Vinson é um dos momentos mais críticos da atividade aeronaval, segundo especialistas. A hora do pouso no porta-aviões não é muito diferente. Devido à pouca extensão da pista, o que também justifica a decolagem relâmpago, é preciso pegar os aviões “pelo rabo”, como afirmou a brasileira naturalizada americana Érica, uma das oficiais a bordo do Carl Vinson. A estratégia é simples: uma espécie de gancho preso ao avião encontra um cabo de aço na pista do navio. Quando – e se – o cabo encontra o gancho, o avião é subitamente freado – de 110 km/h a zero em dois segundos (sensação igualmente indescritível). Para um principiante, a experiência de pousar e decolar talvez seja até mais emocionante que a visita propriamente dita a um porta-aviões de 95 toneladas, o que não tira a grandesa da experiência de se conhecer um navio deste porte por dentro.

Enfim, a salvo. A recepção a bordo do Carl Vinson foi simpática e amistosa.

Ao lado do contra-almirante Branch, um típico militar americano – bem parecido com aqueles dos filmes – Érica traduzia as boas-vindas, que incluíam um pedido de desculpas pelo adiantado da hora, o que nos permitiu ficar no navio por apenas cerca de 40 minutos. O suficiente para impressionar os visitantes, envoltos por caças F-18 – o mesmo que os EUA tentam vender para o Brasil, numa disputada concorrência com caças suecos e franceses.

Três mil militares americanos estavam a bordo, apenas metade da capacidade total. A quantidade de caças também era limitada: cerca de 10 exemplares do F-18 permaneceram à nossa disposição para fotos e qualquer outra atividade, exceto entrar e dar a partida.

Entre os pilotos, o jovem Erik Barnard, de 26 anos, se dispunha a explicar tudo: – Na verdade, é parecido com um videogame – explicava Barnard, apontando para as telas touchscreen dispostas na cabine de seu caça. – O piloto realmente tem o trabalho muito facilitado.

Os computadores fazem boa parte do serviço.

Erik, que está a um ano e meio treinando no F-18, precisa de pelo menos três anos de experiência para poder atuar para valer, no caso de uma guerra.

Mas nem só de guerra vive um porta-aviões. Um cartaz exposto no salão principal do navio, onde ficam guardados os caças, mostrava os resultados da mais recente missão do Carl Vinson, que passou duas semanas e meia auxiliando as vítimas do terremoto no Haiti.

– Na verdade, não estava nos nossos planos. Mas ocorreu o terremoto e fomos direcionados para lá – explicou o contra-almirante Branch.

Sobre a possibilidade de ser deslocado para auxiliar as vítimas do abalo no Chile, acontecido dois dias antes de nossa visita, Branch não pestanejou: – Não creio que será preciso, mas estamos prontos, caso haja necessidade.

Militares brasileiros também estavam a bordo do Carl Vinson, participando de um intercâmbio com seus colegas norte-americanos.

A expectativa era a de conseguir, ao menos, tocar com as rodas dos caças tupiniquins na pista de pouso do porta-aviões, “ao menos para sair bem na foto”, afirmou um dos brasileiros que pediu anonimato, sem saber se podia dar entrevistas.

Fonte: JORNAL DO BRASIL, via NOTIMP



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