Gasolina para avião é adulterada



Donos de distribuidoras no interior de SP foram acusados de formação de quadrilha e danos ao meio ambiente

Bruno Tavares

Depois de “batizar” a gasolina usada por carros e motos, a máfia dos combustíveis investe agora em um novo ramo: a aviação. Interceptações telefônicas feitas com autorização da Justiça revelam que donos de distribuidoras com sede no interior de São Paulo estavam “fabricando” gasolina azul, usada por aviões de pequeno porte. Os grampos serviram de prova para que promotores do Ministério Público Estadual (MPE) conseguissem a condenação e prisão de dez pessoas acusadas de formação de quadrilha, danos ao meio ambiente e crimes contra a ordem econômica.

Os mandados de prisão foram cumpridos ontem pela Polícia Federal em Limeira, Cordeirópolis, Niterói e Rio. Dos dez acusados, quatro continuavam foragidos. Na última sexta-feira, a 3ª Vara Criminal de Limeira condenou empresários e funcionários de distribuidoras de combustíveis a penas que variam de 1 ano e 8 meses a 2 anos e 9 meses de prisão, além de multas aos réus, uma delas no valor de R$ 18,9 milhões.

Os diálogos que apontam a adulteração de gasolina azul foram gravados por policiais civis de Araraquara. Em um deles, um funcionário da Sigja Química Geral Ltda. chamado José conversa com um homem identificado como coronel Gerson. “Peguei uma amostra daquela gasolina deles. A gasolina azul, lá”, diz Gerson. “Vou fazer uma amostra pra eles testar (sic)”. O interlocutor chega a alertar para o perigo. “É… mas avião não pode ter erro”, adverte o funcionário da Sigja. “É, não pode ter. Ele vai testar num… num… nunca testa no avião… testa num coiso, né?”, responde Gerson.

A Sigja, alvo maior da investigação aberta em Araraquara, pertence a Antonio Luís de Oliveira, pai de Viviani Armbruster. Durante as interceptações, a empresária conversa com o pai sobre uma fiscalização da Receita Federal, pedindo a ele que alerte Humberto Armbruster Neto, preso ontem. As gravações telefônicas indicam ainda supostos pagamentos de propina a funcionários públicos e corrupção policial. Numa das conversas, funcionários de uma das empresas falam sobre a “venda” de uma carreta apreendida com combustível adulterado. “Eles acho (sic) que venderam o produto”, diz um funcionário. “Os caras da polícia?”, pergunta o outro. “É!”.

Os promotores sustentam que a quadrilha abria empresas de fachada em nome de laranjas para adquirir grandes quantidades de solvente. O produto, muito mais barato que a gasolina, era levado de caminhão às distribuidoras, e ali misturado com álcool anidro. A fraude permitia aos criminosos praticar preço inferior ao de mercado – em alguns casos, R$ 0,40 a menos por litro de gasolina.

“Foram oito anos de investigação e, durante todo esse tempo, os réus se comportaram como se nada estivesse acontecendo, certos da impunidade”, afirmou o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPE.

As investigações mostram que a quadrilha ocultava bens e valores amealhados com o esquema. Segundo o MPE, Armbruster Neto declarou uma lancha por R$ 18,8 mil. O preço de mercado, porém, varia de 400 a 500 mil (mais de R$ 1 milhão). O mesmo foi feito com um helicóptero modelo Pelicano, que teria sido vendido em 2005 por R$ 166 mil, apesar de avaliado em R$ 1 milhão. Os advogados dos presos não foram localizados.

“Isso pode derrubar a aeronave”

O coronel Ricardo Beltran Crespo, chefe do 4.º Serviço Regional de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos (seripa 4), classificou de “irresponsável” a adulteração de combustível de avião. “Isso pode derrubar a aeronave”, advertiu. A gasolina azul é usada por aviões de pequeno porte com motores a pistão (os grande jatos utilizam querosene). O militar explica que, como esses motores trabalham com rotação mais baixa, os riscos de acidente em caso de falha são elevados.

Mais do que os motoristas de automóveis, diz Crespo, os pilotos de avião ficam totalmente reféns do distribuidor de combustível. “Quando você abastece em um posto de combustíveis, por exemplo, é possível aferir a qualidade do produto pelo tubo de ensaio que fica acoplado à bomba”, compara. “No avião isso não existe. O caminhão da distribuidora encosta na pista e abastece a aeronave. A única coisa que se verifica é a presença de água no combustível, mais nada.”

Outro aspecto destacado pelo militar é o desgaste das peças, acentuado pelo uso de combustível “batizado”. “As peças de um avião são projetadas para durar um certo tempo e depois devem ser obrigatoriamente trocadas. Só que, com a gasolina adulterada, esse prazo acaba encurtado, sem que os pilotos consigam se precaver”, afirma.

Fonte: O ESTADO DE SÃO PAULO, via NOTIMP



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